Bike no Danubio

“Daqui a 20 anos você tenderá a ficar mais decepcionado com as coisas que deixou de fazer do que com as coisas que fez. Portanto, lance fora as amarras. Navegue para longe do porto seguro. Deixe que o vento sopre suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.”
Mark Twain

“Existe uma ciclovia que acompanha o Danúbio…” o assunto surgiu num bate papo bom com os mais queridos amigos, seguido do instigante: “Vamos?” – e foi aí que a viagem começou a nascer. O imenso rio Danúbio flui por dois mil oitocentos e tantos kms, desde a Floresta Negra, na Alemanha até o Mar Negro, na Ucrânia. Ao seu lado corre a famosa ciclovia, conhecida como Donauradweg, e em meio a paisagens inpiradoras, inumeras cidades espalhadas por nove países (entre eles Alemanha, Áustria, Hungria, Eslováquia) podem ser percorridas, num percurso em geral bem plano, propício tanto para passear quanto para treinar. Fui completamente seduzida pela idéia!
Planejamos por alguns meses a viagem e num final de agosto, quente em alguns momentos, frio sem exageros em outros, pedalamos da Alemanha à Áustria – e os breves momentos de chuva, ou trechos mais ingremes nos lembraram bem que quem viaja de bike precisa estar preparado para tudo – foi bom ter acumulado ao longo dos anos a energia porporcionada pelas técnicas respiratórias e orgânicas que pratico. Foram seis dias de pedal, que em vivências e descobertas se multiplicaram muitas vezes.

Iniciamos nossa viagem em Passau, cidade alemã próxima a Munique, na Baviera. Conhecemos o Danubio aí, no lugar onde ele encontra dois outros rios, o Inn e o Ilz, e aproximadamente 350kms depois, chegaríamos em Viena.
Nosso pedal fez com que um monte de nomes de cidades diferentes – Passau, Efferding, Enns, Maria Taferl (no alto de uma montanha), Krems, Tulln e Viena – passassem a ter sentido para nós e fossem lembrados, cada uma delas por uma flor na janela, ou o vento frio do fim de tarde, ou a torre de um castelo, ou os museus e as obras de Schiele e de Klimt. Dias inteiros para pedalar por uma estrada perfeita, algumas vezes fazer força nos 85 km que imaginavamos que seriam 70, vez ou outra grudar na roda do outro para recuperar o folego, respirar fundo e seguir adiante naquela tal subida que nos separava do hotel que dormiriamos naquela noite!
Em duas rodas tivemos a possibilidade de estar em lugares mágicos que provavelmente não conheceriamos de outra forma e seriam ignorados em qualquer roteiro e compoem um poderoso acervo de lembranças. Um vale lindo no meio do nada, colorido com flores e uma igreja branca construida há muitos séculos e o sabor da maça que colhemos na hora ali. Uma cidadezinha pequena onde descobrimos o apfestrudel mais incrível que comemos na vida, recebidos pela alemã mais simpática do mundo, que tem o sonho de conhecer o Brasil! Tivemos sorte de passar justamente no dia de shows de música do Festival de Verão que acontece em Lins; conhecemos a abadia que começou a ser construida por volta do ano 1000 numa rocha sobre a cidade e inspirou Umberto Eco no Nome da Rosa.

No nosso roteiro o destino final foi a capital da Áustria, e para mim foi puro encanto chegar, com garoa fina, na agradável Viena – imponente e moderna também, repleta de castelos, charmosos cafés, musica clássica e também paredes grafitadas, festa ao ar livre com electroswing no fone de ouvido, no agitado MuseumsQuartier. Ruas com carros, bondes, bicicletas e gente elegante, ou simples, ou de terno, ou de salto também pedalando.
Para mim, viajar é perceber detalhes, muitas vezes sem deixar o pensamento divagar, como num exercício de concentração. Viver o momento presente com tal intensidade que o tempo se expande. Viajar de bicicleta tem algo a mais: sentir o vento no rosto, perceber o coração vibrar pleno no peito, respirar fundo e ganhar mais energia para seguir em frente, fazer força nas pernas e descobrir no infinito de memórias que, paradoxalmente, a vida é sempre estar no agora!

– Existem agências especializadas nestas viagens. Eles alugam as bikes e oferecem alguns roteiros específicos com as cidades onde dormir, reservando os quartos (você define a categoria antes) e o melhor: levam as malas de um hotel para outro!
– Optamos por uma que fizesse isso – www.biketours.com – e deixasse o resto com a gente: nossos horários, o ritmo que gostariamos de fazer, a disposição para parar num lugar, almoçar numa cidadezinha, tomar café em outra ou simplesmente continuar. Foi perfeito.

Vanessa de Holanda é professora do DeRose Method e proprietária do Espaço Cultural do Leblon. Os parceiros do inesquecivel pedal foram Patricia Dias e os também instrutores Bruno Sousa e Juliana Dias.

pedal 4

visual no pedal

descanso ciclovia